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A Epopeia do Natural vs. O Império do Conservante

  • Foto do escritor: Divina Floresta
    Divina Floresta
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura
Comparação visual em uma mesa de madeira: de um lado, uma cesta com vegetais orgânicos frescos (tomates, cenouras); do outro, pacotes abertos de salgadinhos coloridos e alimentos ultraprocessados.

Houve um tempo em que comer era um ato de fé. Você olhava para uma maçã, ela olhava para você, e ambos sabiam que o máximo de tecnologia ali envolvida era a gravidade de Newton. Hoje, no entanto, entrar em um supermercado é como participar de uma convenção de química aplicada, onde a seção de "alimentos" parece ter sido escrita por um roteirista de ficção científica com obsessão por siglas.


De um lado, temos o orgânico. Ele é o aristocrata da feira. Chega com sua etiqueta de procedência, ostentando buraquinhos de lagarta como se fossem medalhas de honra ao mérito. "Vejam!", ele parece gritar, "eu sou tão natural que uma família de pulgões decidiu morar em mim!". O problema é que o orgânico exige um relacionamento sério. Ele não aceita ficar esquecido na gaveta da geladeira; se você não lhe der atenção em três dias, ele entra em um processo de melancolia existencial e se transforma em uma poça de nostalgia biológica.


Do outro lado, temos o ultraprocessado. Esse é o imortal da despensa. Enquanto o tomate orgânico morre de saudades da terra, o biscoito recheado sobrevive a uma era glacial, a um apocalipse zumbi e, possivelmente, a uma lavagem na máquina de lavar. Sua lista de ingredientes é um poema épico dedicado ao laboratório: tem estabilizante para ele não surtar, corante para ele fingir que viu o sol e um aroma "idêntico ao natural" que é tão idêntico quanto uma nota de três reais.


A ironia moderna é que gastamos trinta minutos decifrando se o "Goma Xantana" é um herói da Marvel ou um espessante, enquanto tentamos entender por que o frango "com sabor de defumado" nunca chegou perto de uma fogueira. O ultraprocessado é prático, admite. Ele abre com um crack satisfatório e não exige que você lave uma centrífuga de salada depois. Mas há algo de profundamente suspeito em um pão de forma que tem uma data de validade posterior à sua próxima renovação de CNH.


No fim das contas, a escolha é entre o caos da natureza e a ordem da indústria. Comer orgânico é aceitar que a vida é curta, biodegradável e, às vezes, vem com um pouco de terra. Comer ultraprocessado é abraçar a eternidade plastificada, onde o sabor de morango vem de qualquer lugar, menos do morango.


Talvez o segredo da longevidade não seja a dieta, mas o equilíbrio: um suco verde para limpar a consciência e um salgadinho fluorescente para garantir que, daqui a mil anos, os arqueólogos encontrem nossas células perfeitamente preservadas, com sabor de "churrasco intenso".

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