O Banquete das Cascas
- Divina Floresta

- há 3 dias
- 2 min de leitura

O ser humano é um bicho curioso: passou séculos tentando se livrar da natureza para, agora, pagar três vezes o preço por um maço de cenouras que ainda venha com um pouco de terra. É o charme do "rústico".
A sustentabilidade, essa palavra de seis sílabas que preenche planilhas de marketing e corações angustiados, virou uma espécie de etiqueta de luxo. É fascinante observar como a solução para o planeta parece passar, invariavelmente, por uma loja de produtos naturais com ar-condicionado no talo. "Não jogue fora a semente da melancia!", grita o influenciador digital, enquanto o preço do quilo do arroz faz a manutenção de uma dieta estritamente baseada em luz parecer uma opção econômica viável.
A ironia da fome é que ela é a forma mais primitiva e involuntária de minimalismo. Enquanto uns praticam o zero waste (desperdício zero, para quem não fala "sustentabilidês") por ideologia, postando fotos de suas compotas de casca de banana com açúcar mascavo orgânico, outros o praticam por uma questão de física básica: se não há nada no prato, não há nada para sobrar. É a eficiência máxima do vácuo.
É cômico, de um jeito meio trágico, imaginar o encontro desses dois mundos. De um lado, o entusiasta da compostagem doméstica que trata seu minhocário como um animal de estimação de alta performance. Do outro, alguém que adoraria ter algo para compostar, mas que parou na etapa anterior, a da ingestão.
No fundo, a sustentabilidade e a fome são primas distantes que não se bicam no jantar de família. Uma quer salvar o futuro preservando o que sobra; a outra só quer chegar ao final do dia sem que o estômago faça um solo de heavy metal.
Talvez o segredo da salvação do mundo não esteja em descobrir uma nova forma de transformar garrafa PET em fibra de poliamida, mas em entender que a barriga vazia não tem tempo para ler o rótulo do que é biodegradável. Afinal, para quem tem fome, a única coisa que realmente precisa ser sustentável é o almoço. E, de preferência, que ele venha sem a ironia de ser servido numa tigela de bambu que custou o preço de uma cesta básica.


Comentários